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A Retatrutida. Os Obesos. A Perda de 22,6% de Peso. Os Estudos. A Venda Ilegal e o Alerta

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Pacientes com obesidade grave e doença cardiovascular perderam até 22,6% do peso corporal em 80 semanas de tratamento com a retatrutida, segundo dois estudos apresentados nesta semana pela farmacêutica americana Eli Lilly. As pesquisas testaram o medicamento em duas populações consideradas mais difíceis de tratar: pessoas com diabetes tipo 2 associado à obesidade e pessoas com obesidade grave que já têm alguma doença cardiovascular diagnosticada.

Os resultados integram a Fase 3 dos testes clínicos — etapa final, em que o medicamento é avaliado em milhares de voluntários para confirmar a eficácia e mapear os efeitos colaterais antes de ser submetido à aprovação das agências sanitárias.

Embora a retatrutida já esteja em fase avançada de estudos, o conjunto de pesquisas necessário para comprovar sua eficácia, segurança e qualidade ainda não foi concluído. A Lilly aguarda a finalização desses estudos antes de solicitar o registro do medicamento às autoridades sanitárias. Segundo a empresa, o pedido à FDA — a agência reguladora dos Estados Unidos — só deve ocorrer no primeiro trimestre de 2027. Depois, se aprovado, a farmacêutica deve buscar o registro em outros países, incluindo o Brasil.

Enquanto isso, a substância já circula ilegalmente no país: mesmo sem aprovação em qualquer lugar do mundo, canetas vendidas como retatrutida são apreendidas de forma cada vez mais frequente na fronteira com o Paraguai. A empresa e a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) alertam que os produtos são falsificados e representam risco à saúde.

Os estudos

O TRIUMPH-2 testou a retatrutida em adultos com diabetes tipo 2 e obesidade ou sobrepeso — grupo que costuma ter mais dificuldade para emagrecer. Foram avaliadas três doses do medicamento. Na mais alta, de 12 mg, os pacientes perderam em média 20,8% do peso corporal em 80 semanas, o equivalente a aproximadamente 22,5 kg.

O estudo também mediu o controle do diabetes. Houve queda de até 1,6 ponto percentual na hemoglobina glicada — exame conhecido como A1C, que mostra a média de açúcar no sangue nos meses anteriores.

Já o TRIUMPH-3 testou o remédio em um grupo mais delicado: pessoas com obesidade grave que já têm alguma doença cardiovascular, com ou sem diabetes. Nesse estudo, a perda de peso chegou a 22,6% — cerca de 25,3 kg em 80 semanas. É o melhor resultado entre os cinco estudos de Fase 3 já concluídos com a retatrutida.

Como age o medicamento

A retatrutida pertence à mesma classe de medicamentos que Ozempic, Wegovy e Mounjaro, mas atua por um mecanismo mais amplo. Enquanto a semaglutida age sobre um único hormônio, o GLP-1, e a tirzepatida combina a ação sobre dois receptores (GLP-1 e GIP), a retatrutida é a primeira a agir sobre três receptores hormonais ao mesmo tempo: GLP-1, GIP e glucagon.

Os dois primeiros são liberados pelo intestino depois das refeições e avisam o cérebro de que o corpo está saciado, além de ajudarem o pâncreas a controlar a insulina. O glucagon é o que diferencia a retatrutida das demais opções: quando ativado, esse hormônio estimula o corpo a gastar mais energia, inclusive em repouso.

A aposta da indústria é que essa ação tripla combine perda de peso mais acentuada com ganhos metabólicos adicionais — hipótese que os cinco estudos de Fase 3 já concluídos vêm reforçando.

Remédio sem registro, mas já à venda

Hoje, a única forma legal de ter acesso à substância é estar matriculado como paciente em um dos estudos clínicos da própria Lilly. Não há bula aprovada, registro sanitário ou venda autorizada em nenhum país do mundo.

Ainda assim, canetas anunciadas com o nome retatrutida são vendidas em sites e redes sociais, e as apreensões na fronteira brasileira cresceram de forma acelerada. Somente nos três primeiros meses de 2026, a Receita Federal e a Anvisa retiveram mais de R$ 11 milhões em produtos na região de Foz do Iguaçu — valor que já supera o total apreendido em todo o ano de 2025. O Paraguai é apontado como principal origem desse mercado paralelo.

A Anvisa reforça que comprar ou usar um medicamento sem registro sanitário não é apenas um risco à saúde, mas também pode configurar crime.

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Jornalista responsável: Evandro Corrêa- DRT 1976