A Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) aprovou, nesta terça-feira (28), uma recomendação para que membros, diáconos, presbíteros e pastores não participem nem apoiem o movimento “Legendários” e outros grupos com características semelhantes. A decisão foi tomada durante o Supremo Concílio, assembleia geral da igreja realizada em Manaus, e faz parte de uma resolução sobre doutrina e prática da denominação.
A medida classifica as práticas do grupo como incompatíveis com a tradição histórica e a doutrina reformada. Segundo o documento aprovado, o “Legendários” adota metodologias “pragmáticas, neopentecostais e experienciais” que vão contra os princípios das Escrituras Sagradas e da organização da igreja. A orientação atende a uma consulta interna iniciada por integrantes da igreja no Tocantins, que cobravam uma posição oficial e rígida contra a expansão do movimento nas comunidades locais.
Por meio de nota, o Legendários esclareceu que a decisão do Supremo Concílio da IPB não estabelece qualquer proibição à participação de membros da denominação no movimento. O grupo destaca que a deliberação aprovada consiste em uma recomendação para que cada igreja local avalie, de forma autônoma, a orientação a seus membros quanto à participação.
Para fundamentar a recomendação, a comissão teológica da IPB apontou desvios severos na metodologia usada pelo movimento. A igreja condenou o uso de isolamento na natureza e testes de resistência física e emocional como meios de formação espiritual, afirmando que essas dinâmicas de impacto psicológico reduzem o papel central da Bíblia e comprometem a rotina comunitária da denominação. Além da privação física, o parecer aprovado no concílio criticou a mercantilização da fé e o sigilo em relação às atividades do grupo. A direção da IPB destacou que o uso de juramentos, uniformes padronizados, discursos motivacionais e técnicas de marketing transformam a vivência religiosa em uma “experiência de consumo”, além de provocar divisões internas entre os membros das igrejas locais.
Legendários — criado na Guatemala em 2015 e presente no Brasil desde 2017, o movimento é voltado exclusivamente para homens e promete “restaurar o potencial masculino”. A organização atrai empresários, atletas e políticos para desafios de imersão. A principal atividade do grupo é um retiro de 72 horas em montanhas, com taxas por participante que giram em torno de R$ 1,5 mil. No período, os homens passam por privação e testes físicos sem contato com o mundo exterior — exatamente o formato que levou a Igreja Presbiteriana a recomendar que seus fiéis não participem.
Contexto — a Igreja Presbiteriana é uma denominação cristã protestante de tradição reformada, baseada nos ensinamentos da Reforma Protestante do século XVI. No Brasil, a IPB é uma das principais representantes dessa tradição e reúne milhares de fiéis em todo o país.