Mounjaro
O Mounjaro. A Chegada ao Brasil. A Lilly. Os Comprimidos. A Estética e o Alerta
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1 ano atrásem
Por
O Antagônico
O Mounjaro chegou este ano ao Brasil como parte da classe de medicamentos revolucionários no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. A fabricante, a americana Eli Lilly, já estuda outras opções, inclusive em comprimido, para ampliar as possibilidades de cuidado. Mas em meio às vantagens do remédio, há preocupações: o uso por estética, versões manipuladas e falsificadas. “Vemos muito a questão do embelezamento, não do tratamento”, diz Luiz Andre Magno, diretor médico sênior da empresa no Brasil. Em conversa com VivaBem, ele falou sobre os benefícios além da perda de peso, do futuro para tratar a doença e de como a indústria contribui para o debate social acerca da obesidade. Leia a entrevista abaixo:
O que faz medicamentos como o Mounjaro serem considerados uma revolução no tratamento da obesidade?
Luiz Andre Magno: A obesidade está relacionada a cerca de 200 comorbidades. Além da perda de peso, estamos falando de tratar todas as comorbidades, inclusive algumas que diminuem a expectativa de vida. Até 15, 20 anos atrás, a gente falava principalmente de mudanças de estilo de vida, que não deixam de ser importantes, mas a efetividade delas, do ponto de vista do tratamento, é muito baixa…
Depois, começou a ter medicamentos, mas algumas comorbidades só começam realmente a desaparecer quando tem perda mais efetiva de peso. No momento que tem um medicamento como o Mounjaro, que age em dois receptores de uma série de hormônios e efetivamente controla glicemia, tem perda efetiva de peso e estudos mostram diminuição de comorbidades, como apneia obstrutiva do sono e gordura no fígado, mostra que se está vivendo uma revolução.
A Lilly estuda um agonista de GLP-1 em comprimido, o orforglipron. Quais são os diferenciais e vantagens?
É uma molécula de GLP-1 único, de tomada oral, uma vez ao dia, muito mais simples do que os GLP-1 disponíveis no mercado hoje, e não precisa que o paciente faça jejum. O resultado dos estudos para diabetes mostra que ele conseguiu baixar entre 1,3% e 1,6% a hemoglobina glicada de pacientes que tinham uma média de 8.
O que chamou atenção é que no estudo da fase 3, teve uma perda de peso de quase 8%, que não parece muito, mas a gente sabe que o paciente diabético tem muita dificuldade de perder peso. Agora, a gente está aguardando o resultado do mesmo medicamento no paciente com obesidade. No estudo de fase 2, a gente teve uma perda de peso próxima de 15%, que para o medicamento oral é bastante significativa.
Ele substituiria outros medicamentos?
É mais uma opção terapêutica. Há 20, 30 anos, era muito difícil conseguir sucesso para que esse paciente tivesse uma perda de peso efetiva a ponto de mudar a comorbidade. Hoje, a gente vê que a revolução é essa. A Lilly hoje é a empresa que tem, provavelmente, o maior investimento em pesquisa e desenvolvimento No ano passado, foram quase US$ 11 bilhões, quase 40% é em cardio-metabolismo. A tirzepatida já é para diabetes tipo 2 e obesidade no Brasil, mas já tem submetida a indicação para apneia do sono, tem estudo em paciente com insuficiência cardíaca de fração preservada e estudo para gordura no fígado. A gente tem a retatrutida, nosso triplo agonista, que é mais amplo.
Tem um anticorpo monoclonal que atua na preservação da massa muscular, que é o bimagrumabe. Tem um agonista de amilina sendo pesquisado. É assim que a Lily entende a evolução da ciência: você aprofunda o conhecimento da doença e busca soluções que aumentam as possibilidades.
Estudos associam dois medicamentos para melhorar resultados na perda de peso (bimagrumabe e semaglutida) e no diabetes (CagriSema). Como está isso na Lilly?
Estão em fase inicial, estamos pesquisando a molécula para depois fazer a combinação. Hoje, como nossos medicamentos já agem em mais de um receptor, ainda não estão com combinação tão grande, mas a gente já tem no nosso portfólio o bimagrumabe para fazer os estudos clínicos das combinações possíveis.
A gente tem falado de combinações que vão potencializar a perda de peso. Os medicamentos que existem hoje já não seriam suficientes?
A obesidade é uma doença muito complexa. Tem paciente com IMC que às vezes não chega a ser obesidade, mas com resposta metabólica muito grande. Tem paciente com IMC de 50, de 55. A busca por outros medicamentos é dar opção, que individualiza o tratamento. “O montante de perda de peso hoje, para a maioria dos pacientes, oferece tratamento eficaz, mas estamos falando de uma doença e precisa de um profissional de saúde para entender qual é o peso do paciente. A avaliação profissional multidisciplinar é fundamental e quanto mais arsenal terapêutico tiver, melhor”.
O uso desses medicamentos seria crônico ou é possível determinar um tempo?
Acho que é crônico, entendendo que a obesidade é crônica. Ouvi de um médico que se você parar com qualquer tratamento para obesidade, ela não está curada. Se você parar de fazer dieta, parar de fazer atividade física, vai ganhar peso. É muito mais difícil para uma pessoa muito obesa fazer atividade física. “Pode ser que, no primeiro momento, ela perca peso (com medicamento) e, podendo fazer mais atividade física, consiga diminuir a dose para manter o peso ideal, junto com dieta e atividade física. Mas, de novo, o tratamento da obesidade, seja ele qual for, tem de ser crônico, senão a pessoa volta a ganhar peso”.
A discussão sobre o uso do remédio por pessoas sem doenças metabólicas persiste. Qual o papel da indústria farmacêutica nesse debate?
A Lilly sempre se posicionou, desde o começo, que eles estão indicados para obesidade e doença metabólica, e a gente entende que realmente é o profissional de saúde que deve prescrever. O medicamento com receita controlada garante que o médico esteja no controle, mas hoje a gente tem outra preocupação muito grande, que são os medicamentos manipulados.
Como lidam com eles?
Nesse mercado, vemos muito a questão do embelezamento, não do tratamento da doença. O volume de medicamentos manipulados assusta, é de quase 28 quilos, que dá para fazer milhões de canetas de tirzepatida no Brasil. É um medicamento que ninguém atestou se de fato é tirzepatida, ninguém certificou, não foi testada em estudo clínico. Você tem um volume gigantesco de pessoas recebendo esse medicamento, boa parte prescrita por médicos e não está sendo controlada pela retenção de receita.
A Lilly sempre trabalhou com as sociedades médicas e lançou uma campanha no Oscar do ano passado dizendo que esses medicamentos não são para as pessoas perderem peso e caberem no vestido. Quando você faz isso, tira o tratamento de uma pessoa que de fato tem a doença. Também lançamos a campanha “Desconfiar é Saudável”, porque se você tem um tratamento disponível que foi pesquisado, aprovado, validado por agência regulatória séria, como FDA e Anvisa, por que expor seu corpo e sua saúde a um medicamento que você não sabe a origem e que ninguém consegue certificar que de fato é o medicamento que estão dizendo ?
E os remédios falsificados?
Trabalhamos junto das entidades públicas brasileiras com treinamento, como Polícia Federal, porque nossa preocupação é a segurança do paciente. Ficamos muito preocupados com a quantidade de pessoas que estão recebendo medicamento sem saber a origem, dizendo que é nossa molécula. A Lilly não fornece tirzepatida para nenhum lugar do mundo para ser produzida de outra forma. Nossa única forma de venda é nos canais regulares da farmácia, não vendemos em rede social nem em clínicas de estética.
Como avalia a produção nacional dos análogos de GLP-1, com possível quebra de patente do Ozempic em breve?
A produção de genéricos segue a legislação de forma adequada, são uma forma de ampliar o acesso no país, então a Lilly não tem nenhuma ressalva em relação a isso, é o caminho natural. A gente não acha que eles competem com a gente, porque estamos falando de um produto com mecanismo de ação, perfil e eficácia diferentes (tirzepatida age em dois hormônios, enquanto a semaglutida age em um).
Há previsão de pedir a inclusão do Mounjaro no SUS?
Nesse momento não, mas a gente sempre fala que não adianta desenvolver a melhor tecnologia se as pessoas não puderem ter acesso a ela. É algo um pouco mais de longo prazo.
Para onde caminha a ciência no tratamento da obesidade?
Para um arsenal terapêutico mais amplo. Estamos entendendo os mecanismos associados com a obesidade, e poucos médicos entendem a ciência por trás da obesidade: a genética, mediador inflamatório, mediador intracerebral, neurotransmissor. Tem muita coisa ainda que vamos precisar caminhar muito. Ao mesmo tempo, estamos descobrindo diferentes medicamentos, diferentes mecanismos de ações. É uma descoberta nova, um momento novo para a gente…
