Um empate fora de casa em um confronto de mata-mata costuma ser encarado como um bom resultado. Sob esse aspecto, o Remo deixa a Vila Belmiro satisfeito com o 0 a 0 diante do Santos, pela Copa do Brasil. Se repetir o desempenho apresentado na partida de ida, porém, o Leão pode sofrer no Mangueirão.
Não foi por muito tempo, mas, nos momentos em que esteve bem na partida, o Santos foi bem mais perigoso que o Remo e não balançou as redes por falta de capricho. O time azulino, por sua vez, saiu de campo sem finalizar uma única vez dentro da área santista. Os números ajudam a explicar a atuação: foram 19 finalizações do Santos contra apenas seis do Remo. Mais do que isso, o Peixe concluiu 14 vezes de dentro da área azulina, enquanto o Leão não conseguiu nenhuma dentro da área adversária.
O Santos começou melhor os dois tempos. Com boa movimentação, troca de posições e tabelas rápidas, encontrava espaços com facilidade e chegava ao gol azulino de forma recorrente. Sempre que aumentava a intensidade, conseguia envolver a marcação remista e criar chances.
Nos primeiros dez minutos, o Remo só conseguiu chegar em um chute de fora da área — e que chute! Aos nove minutos, Jajá recebeu espaço para arriscar e soltou um forte chute; Brazão espalmou, e a bola ainda explodiu no travessão antes de sair. A partir dos 20 minutos, o cenário mudou parcialmente: após orientação de Léo Condé para aumentar a pressão na saída de bola adversária, o Remo passou a recuperar mais a posse e reduziu o volume ofensivo do Santos. A estratégia funcionou para afastar o time da própria área, mas não fez os visitantes oferecerem grande perigo.
Mesmo com mais posse de bola, o Leão pouco produzia. A equipe trocava passes sem agressividade, tinha dificuldade para acelerar as jogadas, aproximar seus jogadores e encontrar espaços entre as linhas de marcação. Faltavam intensidade, movimentação, aproximação, desmarques e qualidade para transformar a posse em oportunidades.
O Santos, por sua vez, oferecia espaços — a equipe paulista havia sofrido gols em nove das últimas dez rodadas do Campeonato Brasileiro —, mas o Remo não conseguiu explorar essa vulnerabilidade, nem mesmo quando encontrava campo para contra-atacar. Em uma dessas situações, por volta dos 25 minutos da etapa inicial, Zé Ricardo teve espaço para acelerar, mas desperdiçou a chance de servir Alef Manga em boas condições.
Quando conseguiu levar algum perigo, o Remo voltou a recorrer a uma alternativa que tem se tornado frequente desde a retomada da temporada: os chutes de média e longa distância. Não por acaso, dos três gols marcados pela equipe após a pausa para a Copa do Mundo de Clubes, dois saíram dessa forma — um com Jajá, contra o Vitória, e outro com Picco, diante do Mirassol. Aos 16 minutos, o Remo fez o simples, mas que parece ser de extrema dificuldade em alguns momentos: conectar os atacantes e avançar com a bola. Nesse lance, Yago Pikachu recebeu passe de pivô de Alef Manga e soltou a bomba de fora da área; Gabriel Brazão, em dois tempos, fez a defesa.
Se no ataque o desempenho deixou a desejar, defensivamente houve destaques. Zé Welison fez talvez sua melhor partida com a camisa azulina: dominou o meio-campo, venceu duelos, protegeu a defesa e neutralizou diversas investidas do setor ofensivo santista, incluindo jogadas envolvendo Neymar. Já os demais jogadores do meio tiveram atuação discreta e contribuíram pouco para a construção das jogadas.
Ainda assim, algumas fragilidades seguem preocupando. Depois de sofrer dois gols em cobranças de escanteio diante do Mirassol, o Remo voltou a passar sufoco nas bolas paradas. O Santos criou três boas oportunidades nesse fundamento: em uma delas, acertou o travessão; em outra, chegou a marcar, mas o lance foi anulado porque a cobrança de Neymar fez a curva para fora antes de encontrar Gabigol na área. Outro dado que chama atenção foi o alto índice de passes errados: assim como aconteceu contra o Mirassol, o Remo voltou a ultrapassar a marca de 90 erros de passe.
Disputa aberta — O empate deixa a disputa completamente aberta e, pelo contexto do confronto, pode ser comemorado: em mata-matas, sair vivo de um duelo fora de casa costuma representar uma vantagem importante. O desempenho, entretanto, acende um alerta. Para aproveitar a oportunidade de decidir diante da torcida e transformar o bom resultado da ida em classificação, o Remo precisará apresentar mais com a bola nos pés. Contra um Santos que ofereceu espaços durante boa parte da partida, o Leão terminou os 90 minutos sem finalizar uma única vez dentro da área. Repetir essa atuação no Mangueirão pode custar caro — muito caro.