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Walmor Chagas. O Monstro Sagrado de 82 Anos. A Velhice. A Solidão. O Tiro na Cabeça. A Morte no Sítio 

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Um dos maiores nomes da televisão brasileira, o ator Walmor Chagas tirou a própria vida, aos 82 anos, com um tiro disparado na cabeça, em janeiro de 2013.  Walmor foi encontrado morto por um funcionário da pousada “Sete Nascentes”, de sua propriedade, no bairro Gomeral, em Guaratinguetá, no interior de São Paulo. Segundo a Polícia Civil, a morte ocorreu entre 15 horas e 30 minutos e 18 segundos. O ator morreu com um tiro na cabeça disparado por um revólver calibre 38.

Segundo as informações do delegado titular do 2º Distrito Policial de Guaratinguetá, Antonio Luiz Marcelino, que conduziu as investigações, o corpo foi encontrado em um dos cômodos da pousada sentado em uma cadeira, com a arma no colo e ambas as mãos sobre ela. O laudo dos exames periciais realizados no local da morte e no cadáver atestou que o ator foi ao autor do disparo, ao encontrar vestígios de pólvora em uma de suas mãos. Na arma havia quatro balas, além de uma deflagrada. A cápsula estava no chão. Chagas tinha uma perfuração na têmpora direita. O tiro atravessou a cabeça

Apenas o caseiro José Arteiro de Almeida estava no local e disse à polícia ter ouvido um disparo antes de encontrar o patrão sem vida. A principal hipótese é que o suicídio tenha sido motivado pelos problemas de saúde que limitaram seus movimentos nos últimos anos. De acordo com o delegado Marcelino, o ator também sofria de solidão. A advogada da família, Maria Dalva Coppola, confirmou as dificuldades de locomoção e visão enfrentadas por Walmor. . Como desejo do próprio ator ainda em vida, seu corpo foi cremado em São José dos Campos e suas cinzas lançadas na Serra da Mantiqueira.

Walmor Chagas era viúvo da atriz Cacilda Becker, com quem viveu durante treze anos – até a morte dela, em 1969. A união teve início em 1956, durante os ensaios de Gata em Teto de Zinco Quente, de Tennessee Williams, sob a direção de Maurice Vaneau. O casal tinha uma filha, adotada em 1964, a cantora Maria Clara Becker Chagas, conhecida como Clara Becker. Renata Pallottini, poetisa e teatróloga, em artigo publicado no suplemento do jornal Valor Econômico, lembrando Walmor Chagas, dizia que sua morte ocorreu “por sua livre e espontânea vontade, escolhendo a hora e as circunstâncias”.

Isso faz lembrar uma entrevista que ele deu a Simão Khoury, em 1980. Encontrava-se na ocasião, com 50 anos, mas como estava com a barba branca crescida aparentava mais. E dizia, na entrevista, que independentemente da aparência, se comportava como um homem de 60, porque, na verdade, estava sempre “um pouco adiantado”. E justificava: “Eu fui sempre assim. Sempre representei um papel”. Em sequência, questionado sobre em qual momento na sua vida teria exclamado “Ah meu Deus, como é bom viver”, afirmava: “Em alguns dias, em alguns fins de tarde”. E sobre se já teria havido aquele dia em que pensou: “Que merda de vida! Não vale a pena continuar!”, em resposta lembrou-se: ”Quando eu tinha 16 anos, um dia eu cheguei a encostar o cano de revólver na minha cabeça”.

Surpreso, o entrevistador perguntou: “Por que você fez isso?” E Walmor respondeu: “Porque eu achei que era o instante…”. Khoury insistiu: “Você estava representando para você mesmo?”. “Talvez…” objetou Walmor e complementou: “Até hoje eu desconfio que aquele gesto foi teatral. Mas, naquele momento, eu estava mesmo angustiado, sem entender nada… estava achando a vida meio vazia…,(…), talvez fosse pelo fato de que pela primeira vez eu tomava conhecimento da miséria humana, da dor, da pobreza, do abandono do ser humano”

A ideia de tirar a própria vida, segundo se infere da entrevista, o acompanhou a vida toda, na puberdade, na meia idade, na velhice. Estava, portanto, inserida em seu inconsciente. A entrevista, publicada no livro “Atrás da Máscara 2”, (Civilização Brasileira 1983), é profética e só vem confirmar o apurado na investigação policial da morte de Walmor Chagas de que, realmente, foi ele mesmo que acionou o revólver que encostara a sua cabeça.Se a vida de Walmor foi uma eterna representação, esta chegou ao último ato e o pano caiu. Não houve aplausos, só lágrimas.

Carreira – Walmor de Sousa Chagas Nasceu em Porto Alegre nalguma antiga família com raízes nos Açores, em 28 de agosto de 1930. Mudou-se para São Paulo no começo dos anos 1950, buscando uma chance no cinema. Cursou a Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo. Foi homem de teatro, com larga atuação, e era apontado como artista de indiscutíveis méritos e criador de personagens de grande impacto.

Em 1952, fundou o Teatro das Segundas-Feiras, junto com Ítalo Rossi, encenando “Luta até o amanhecer”, de Ugo Betti. Estreou no Teatro Brasileiro de Comédia, em 1954, atuando na peça “Assassinato a domicílio”, de Frederick Knott, com direção de Adolfo Celi. A estreia de Walmor Chagas no cinema aconteceu em 1965, quando interpretou o empresário Carlos em São Paulo S/A, de Luís Sérgio Person, e contracenou com Eva Wilma.

O filme recebeu o Prêmio Cabeza de Palenque na VIII Reseña Mundial de los Festivales Cinematográficos de Acapulco, e a atuação de Walmor recebeu elogios do cineasta espanhol Luis Buñuel. Na televisão, fez inúmeros personagens marcantes como o Fábio em Locomotivas, Alberto Karany em Coração Alado, Horácio Ragner em Eu Prometo, Oliva em Vereda Tropical, Afonso da Maia em Os Maias, Guilherme Amarante Paes em Salsa e Merengue e mais recentemente o Dr. Salvatore em A Favorita. Também participou de outras obras importantes na TV como Avenida Paulista, O Pagador de Promessas e Mad Maria.

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Jornalista responsável: Evandro Corrêa- DRT 1976